A Ideia de Confederação Luso-Brasileira nas primeiras décadas do séc. XX

Ernesto Castro Leal

“De um lado e do outro do Atlântico, que vemos? Numa extensíssima margem da América austral, o Brasil; quase em frente, na costa africana, a vasta colónia de Angola; e, entre as duas, como um mar lusitano, o Atlântico sul. Numa zona de navegação comum ao Brasil e à África ocidental – o arquipélago de Cabo Verde. E, mais ao norte, como pontos de escala em rotas diferentes – os Açores e a Madeira. E, no ponto de convergência de inúmeras linhas de navegação, como vasto entreposto comercial dos produtos de Portugal e Brasil, o amplo e magnífico porto de Lisboa!”. João de Barros (1881-1960). Atlântida. Lisboa, 15 Junho 1917.

1. Considerações iniciais

No século XX, o federalismo e o confederalismo político português e brasileiro manifestou-se também no ideal de uma Confederação Luso-Brasileira, que remontava proximamente aos primeiros anos desse século. A sua configuração teórica teve um desenvolvimento intelectual acentuado mas diverso (acordo, aliança, liga, união, confederação), entre 1917 e 1923, junto de intelectuais portugueses (António de Bettencourt Rodrigues, João de Barros, Henrique Lopes de Mendonça, Sebastião de Magalhães Lima, Jaime de Magalhães Lima, Ricardo Severo, Alberto de Oliveira ou Anselmo Braamcamp Freire) e junto de intelectuais brasileiros (José Joaquim Medeiros e Albuquerque, José Pereira da Graça Aranha, Artur Pinto da Rocha, Spencer Vampré, Domício da Gama, pseudónimo de Domício Afonso Forneiro, Aldo de Cavalcanti Melo, Alberto Seabra ou Noé de Azevedo).
António Maria de Bettencourt Rodrigues, médico alienista, doutorado em 1886 pela École de Médecine de Paris, que esteve exilado voluntariamente no Brasil, entre 1892 e 1913, devido às suas convicções republicanas, foi um dos maiores entusiastas dessa Confederação Luso-Brasileira como utopia etnocultural, geopolítica e económico-social, que devia ser concretizada gradualmente . Segundo ele, tornaria os dois Países unidos numa “das mais formidáveis potências mundiais” e poderia ter como consequência a formação de um grande bloco luso-hispano-americano, depois de concretizada a aliança estabelecida entre a Confederação Luso-Brasileira, a Espanha e as Repúblicas americanas de influência espanhola, bloco que estava “destinado a ser talvez o centro de aglutinação de toda a latinidade” .

2. Identidades

Após a consagração jurídico-constitucional de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, como forma de Estado, no artigo 20 da Constituição Portuguesa liberal de 1822, onde se esboçava um sistema federal imperfeito, visto “faltar, pelo menos, uma assembleia electiva que funcionasse juntos dos órgãos do poder executivo brasileiro” – aspecto essencial que oporia radicalmente os deputados portugueses, receosos da indivisibilidade da Monarquia Portuguesa, aos deputados brasileiros, que pretenderam aprofundar a autonomia política do Brasil –, seguiu-se um atribulado processo político e diplomático que terminaria com o Tratado de 29 de Agosto de 1825, negociado sob a mediação inglesa, pelo qual Portugal reconhecia definitivamente a Independência do Brasil.
O ressurgimento significativo da ideia confederativa entre os dois Países independentes deveu-se ao pensador brasileiro Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, fundador da Academia Brasileira de Letras, quando, em Maio de 1902, durante a conferência sobre O elemento português no Brasil, proferida no Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro, apresentou a necessidade de uma aliança luso-brasileira entre as duas nações independentes, lida como União do “grande grupo étnico luso-brasileiro” .
O seu ponto de partida era o de promover, no momento, uma redescoberta das origens e destino histórico do Brasil para os seus novos desafios no início do século XX, aí inserindo a conveniência do fortalecimento do elemento português (salientando a língua, os costumes, o direito e o carácter), sem que isso significasse uma oposição, de matriz nacionalista, aos outros elementos que estiveram na formação e evolução da grande nação brasileira.
Sílvio Romero percepcionava a construção de ideologias transnacionais em confronto, numa época de crescentes ameaças guerristas, referindo o pan-germanismo ou o pan-eslavismo, e advertia que o desenvolvimento de um possível pan-americanismo, para ser eficaz, não podia deixar de ter três expressões independentes: as anglo-americanas, as luso-americanas e as hispano-americanas. Propunha o fortalecimento das relações bilaterais entre Portugal e o Brasil, em torno de algumas políticas públicas comuns – tratados de comércio, convenções literárias, exposições de produtos, fomento da emigração, colaboração na marinha mercante, acordos militares –, reafirmando, a terminar, a importância de salvaguardar a língua portuguesa no Brasil:

“Não duvido, antes quero crer, desejo crer, que a língua portuguesa deva ser eterna em grande parte do Brasil; mas, se as coisas continuarem como vão, ela, em certas zonas do país, terá de desaparecer, e, o que é mais grave, de algumas já desapareceu […]. E, como aspiração nacional, como um ardente desejo, nós devemos também esforçar-nos para que esta língua, grandíloqua e sonora, seja também perpétua, seja eterna em nossas almas, para que nunca mais desapareça das plagas de Guanabara, nem de toda esta imensa e amada terra que vai do Amazonas ao Prata…” .

O contexto histórico desta conferência estava ligado, quer ao nascimento em 1900 da União Ibero-Americana (organismo de propaganda), durante um Congresso Pan-americano das Repúblicas hispano-americanas, reunido no México, donde saiu a ideia de uma “festa anual da raça”, quer ao ambiente internacional de paz armada para a criação de blocos político-militares, significando um crescente confronto de hegemonias – tríplice aliança entre os Impérios Alemão e Austro-Húngaro e a Itália (1882) e entente cordial entre a França e a Inglaterra (1904), transformada em triplo acordo com a entrada do Império Russo (1907) –, quer ainda à mentalidade organicista, etno-antropológica, de redescoberta das origens rácicas e das práticas culturais dos povos, afirmando-os e agregando-os.
Neste processo de reconstrução histórico-sociológica e de reinvenção das tradições e identidades nacionais, dentro do lado brasileiro, muito contribuíram as amplas visões sociológicas de Sílvio Romero ou de Francisco José de Oliveira Vianna, e, do lado português, saliente-se a elite cultural organizada pela revista portuense Portvgalia, com o subtítulo elucidativo de “materiais para o estudo do povo português” (1899-1903), dirigida por Ricardo Severo da Fonseca Costa – um dos entusiastas do confederalismo luso-brasileiro. Na revista colaboraram, por exemplo, António da Rocha Peixoto, Artur da Fonseca Cardoso, Francisco Martins Sarmento, Francisco Adolfo Coelho, Alberto Sampaio, Joaquim Teófilo Braga ou Francisco de Sousa Viterbo.
A nota do director, assinada com a data de 1 de Setembro de 1898 e que abria o fascículo n. 1, explicava os objectivos a prosseguir:

“Admitida a nação portuguesa actual como organismo étnico com vida própria independente – com razões de ser de ordem etnológica e histórica – procura-se estudá-lo por todos os seus aspectos, definindo a natureza e relações dos próprios elementos, a fisiologia e mesologia da sua vida orgânica e habitat, acentuando os caracteres específicos que formam e explicam actualmente os tipos nacionais […]. Propor-se-á o renascimento da verdadeira alma popular – inicia-se com patriotismo e esperança obra de reivindicação pela grei portuguesa […]. Abrir-se-á um novo período de RENASCENÇA dentro da própria nacionalidade, que será também renascença de um velho povo […]” .

Esses intelectuais praticavam várias áreas disciplinares, como a historiografia, a filosofia, a arqueologia, a antropologia ou a etnologia, e tinham como programa de trabalho aprofundar os conhecimentos materiais e imateriais sobre Portugal e os Portugueses. O republicano Ricardo Severo, que se exilou politicamente de forma voluntária no Brasil e se radicou definitivamente desde 1908 na cidade de São Paulo , ampliará, nos inícios dos anos 20, o ideário cívico-patriótico e nacionalista cultural do grupo da revista Portvgalia, através de uma justificação pan-latinista para a construção de uma confederação luso-brasileira.

3. Modalidades

Em Portugal, a primeira divulgação da ideia de aliança luso-brasileira proposta por Sílvio Romero ficou a dever-se a Joaquim José Coelho de Carvalho, presidente da Academia das Ciências de Lisboa, que a entendeu já em 1908 como um verdadeiro sistema político luso-brasileiro. No ano seguinte, Zófimo Consiglieri Pedroso apresentou à Sociedade de Geografia de Lisboa, na sessão de 10 de Novembro, um projecto de acordo luso-brasileiro para solidificar a história, as tradições, a língua e a raça a que pertenciam e evitar a “desnacionalização” (leia-se, transformação étnica).
A 12 de Outubro de 1910, uma semana após a revolução republicana portuguesa de 5 de Outubro, o Governo Provisório, chefiado por Joaquim Teófilo Braga, aprovou um decreto com força de lei, dentro da ideologia laicista e positivista do republicanismo, onde constavam os cinco novos feriados oficiais da República Portuguesa, dedicados à fraternidade universal (1 de Janeiro), aos precursores e mártires da república (31 de Janeiro), aos heróis da república (5 de Outubro), à autonomia da pátria portuguesa (1 de Dezembro) e à família (25 de Dezembro).
Acrescentou-se, em 1 de Maio de 1912, um sexto feriado oficial, evocando o descobrimento do Brasil (3 de Maio), conforme convicção desde meados do século XVI de ter sido o dia da chegada da armada de Pedro Álvares Cabral a terras do Brasil . Era a consagração do universalismo dos Descobrimentos portugueses e também uma distinção fraterna ao Brasil republicano, cujo ministro da Guerra, marechal Hermes da Fonseca, estava em visita a Portugal aquando da revolução republicana, sendo esse País o primeiro a reconhecer oficialmente a República Portuguesa, a 15 de Novembro de 1910, quando foi anunciada a vitória eleitoral presidencial de Hermes da Fonseca contra o candidato civilista Rui Barbosa, na data do aniversário da República Brasileira.
No dia 30 de Março de 1916, Joaquim José Coelho de Carvalho, numa sessão de homenagem ao poeta brasileiro Olavo Bilac (sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa desde 17 de Junho de 1915), advogou a ideia da União de Portugal e Brasil, compartilhada na mesma sessão pelo escritor monárquico Alberto de Oliveira, que chegou a afirmar que a “Ibéria não é mais do que uma expressão geográfica, contanto que a Lusitânia, representada em Portugal-Brasil, é um consumado facto histórico”. O escritor José Valentim Fialho de Almeida tinha proposto antes uma Confederação de Portugal, Galiza e Brasil.
Sobre a reconstrução do velho núcleo da Lusitânia, ainda muito mitificado na época, dirá Ricardo Severo, durante uma conferência comemorativa do décimo primeiro aniversário da proclamação da República em Portugal, proferida no Centro Republicano Português de São Paulo, que tinha ajudado a fundar em 1908:

“[…] os primitivos núcleos da Lusitânia vão-se de novo agregando, impulsionados pela acção catalíptica das suas energias étnicas, pela força de coesão que une a grei em torno de uma tradição. E de novo se reconstitui, no reino de Portugal e dos Algarves, a velha Lusitânia do tempo dos romanos, salvo alguns núcleos, ao Norte e ao Nascente, que não são hoje portugueses por convenção política, mas que o são pelo sangue, pela tradição, e quase também pela língua e pela literatura […]” .

A origem de Portugal na antiga Lusitânia é recusada liminarmente pelo maior investigador português do período romano na Península Ibérica, Jorge de Alarcão, pois, segundo escreveu recentemente, continua a manter a ideia de que os Lusitanos ocupavam terras da Beira Interior e da actual província espanhola da Estremadura:

“A filiação de Portugal na Lusitânia de Viriato é, porém, insustentável. Os povos do Noroeste, que os Romanos apelidaram de Calaicos, não se considerariam Lusitanos, apesar de terem com estes, consideráveis afinidades de língua e de religião (que são, sem dúvida, importantes factores identitários). Mas os Lusitanos não sentiriam afinidades com os povos do Baixo Alentejo e do Algarve, com diferente(s) língua(s) e deuses e mesmo diferentes raízes étnicas. Excluindo uma eventual explicação das fronteiras de Portugal a partir de uma identidade étnica pré-romana que se teria mantido, eventualmente adormecida, durante o longo período de dominação romana, teremos de concluir que tinha razão Amorim Girão quando pressentia que ‘factos derivados da vontade dos homens … devem ter exercido a sua influência no traçado da fronteira luso-espanhola’. Tais homens não terão sido apenas os reis; terão sido também bispos, mestres de ordens militares como a dos Templários, fidalgos que com alguma autonomia conquistaram terras ou as povoaram […]” .

A audiência do projecto confederativo alargou-se com a entrevista concedida pelo republicano António Bettencourt Rodrigues ao republicano João de Barros, publicada no dia 15 de Junho de 1917 na revista Atlântida, “mensário artístico, literário e social para Portugal e Brasil” (1915-1920), dirigida inicialmente por João do Rio, pseudónimo de João Paulo Barreto (mais tarde por Graça Aranha) e por João de Barros, num contexto dramático de guerra, principalmente europeia. A entrevista pretendia responder a uma pergunta, onde ecoava também o pensamento do já referido monárquico Alberto de Oliveira: “Uma ideia a defender. A Confederação Luso-Brasileira. Será possível uma nova e grande Lusitânia?”.
Retomando outra entrevista dada ao jornal monárquico O Dia, de Lisboa, dirigido por José Augusto Moreira de Almeida, em Abril de 1917, Bettencourt Rodrigues, defensor das Repúblicas Unidas de Portugal e Brasil numa Confederação Luso-Brasileira, após se interrogar sobre o que sucederia às pequenas nacionalidades, depois da Primeira Grande Guerra, na vida económica, nas relações internacionais e nas condições de existência, afirmou:

“A ideia de uma Confederação, essa sim, não poderá deixar de impor-se à atenção de brasileiros e portugueses, mormente nesta hora incerta em que se jogam os destinos das nações, ou, para melhor dizermos, das diferentes raças que procuram alicerçar em novas bases os seus respectivos agrupamentos. […] recentes factos ainda mais confirmam é a tendência para os grandes agrupamentos de povos, estados, e nacionalidades, sob uma só bandeira, e tendo como base, ou o território, ou a raça, ou interesses de ordem económica” .

Apesar de Bettencourt Rodrigues reconhecer que as duas áreas territoriais estavam muito distantes, acreditava que tal não impedia que o “agrupamento étnico” e os interesses económicos e estratégicos atlantistas comuns pudessem justificar a unificação de Portugal e do Brasil sob a fórmula federativa , num quadro internacional onde entrevia a formação de alianças geopolíticas, económicas e militares, agrupando nações: Alemanha e Rússia (bloco germano-eslavo); Japão e unidade da Ásia (bloco asiático); Inglaterra e Estados Unidos da América (bloco anglo-saxónico); Espanha e Repúblicas americanas de influência espanhola (bloco hispano-americano); Portugal, com as suas colónias, e Brasil (bloco luso-brasileiro).
Seguiu-se a reacção favorável de vários intelectuais portugueses e brasileiros à ideia de Confederação Luso-Brasileira – escritores, jornalistas, médicos, juristas, diplomatas ou militares, influenciados alguns deles pelo pensamento positivista –, potencializada com mais entusiasmo em 1922 por causa da visita ao Brasil do Presidente da República António José de Almeida e da travessia aérea do Atlântico Sul feita por Carlos Gago Coutinho e Artur Sacadura Cabral, destacando-se, a propósito, um conjunto significativo de opiniões.
Do lado português, o oficial de Marinha, escritor e autor da letra de “A Portuguesa” (base do Hino da República), Henrique Lopes de Mendonça, falou de pan-lusitanismo pacífico, oposto ao pan-germanismo expansionista, para o engrandecimento da pátria comum; o escritor Jaime de Magalhães Lima, monárquico, católico e tolstoiniano, referiu a “unidade da raça e rejuvenescimento do sangue velho pela transfusão do sangue novo”; Ricardo Severo recordou a latinidade do grupo luso-brasileiro que se devia exprimir numa Liga Luso-Brasileira, representando pela vastidão territorial uma potência que teria uma grande influência mundial; o historiador e republicano Anselmo Braamcamp Freire escreveu que ambas as nações se deviam “unir, entrelaçar e amar poderosamente” através de uma aliança que há muito tempo devia estar feita, o que representaria uma das mais poderosas alianças do mundo; Sebastião de Magalhães Lima, que nasceu no Rio de Janeiro em 1850 e era uma referência histórica do republicanismo – exercia o cargo de Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido quando saudou por carta a ideia confederativa de Bettencourt Rodrigues –, proclamou a urgência do pan-lusitanismo, após evocar razões de ordem moral e filosófica:

“Os continentes fraternizam. A Europa é a América, e a América é a Europa. O Pan-lusitanismo! A confederação entre povos afins será uma resultante lógica da evolução que se desenha já no horizonte como a única solução racional que os acontecimentos hão-de impor. Para todos ao efeitos, torno meu o teu pensamento. Propagá-lo-ei, com a maior devoção e o zelo mais enternecido, em todos os centros e colectividades onde a minha modesta influência puder exercer-se …. A nova e grande Lusitânia não só é possível, senão também se transmudará numa luminosa realidade, imposta pelas circunstâncias da nova era que a guerra nos há-de trazer […]” .

Do lado brasileiro, o escritor, magistrado e diplomata Graça Aranha considerou que a união política, que denominava de Federação Luso-Brasileira, seria uma consequência da unidade moral das duas nações, revelando a “grande expressão internacional da raça portuguesa”, o que permitiria ao Brasil a sua consolidação como “nação europeia”; o jurista Spencer Vampré também era adepto das duas Repúblicas confederadas, numa União Luso-Brasileira; o médico de hemeopatia Alberto Seabra acreditava que a união política luso-brasileira podia ser o primeiro gérmen das instituições ibero-americanas; o escritor, jornalista e autor do Hino da República, Medeiros e Albuquerque, em artigo publicado no prestigiado jornal Estado de São Paulo, no dia 11 de Julho de 1919, apresentou as bases de um projecto de Constituição que consagrava, quanto à forma do Estado e ao sistema de governo, a constituição da Confederação Luso-Brasileira, reunindo a República dos Estados Unidos do Brasil e a República Portuguesa (artigo 1), o exercício da Presidência da Confederação, alternadamente, cada ano, pelo Presidente de uma das duas Repúblicas (artigo 3) ou a incorporação autónoma das colónias portuguesas na Confederação, após chegarem à situação de obter a sua independência (artigo 12); D. Duarte Velloso afirmara em 3 de Maio de 1918, durante uma conferência proferida no Grémio Luís de Camões em Curitiba:

“As vantagens da Confederação Luso-Brasileira se manifestam claras e positivas, se atendermos não somente à posição geográfica de Portugal como também ao seu vastíssimo império colonial […]. Com a Confederação Luso- Brasileira entraria o Brasil em concorrência com os demais países, visto não faltarem os elementos mais essenciais para esse fim […]. Mantendo a mesma língua e os mesmos costumes, os povos português e brasileiro se procurarão mutuamente, e nenhum outro se poderá colocar de intermeio evitando essa Confederação […] ”.

4. Governabilidade

A visão serena de aproximação luso-brasileira recusava o “chauvinismo” auto-suficiente, que nunca o é, propondo um patriotismo luso-brasileiro, assente na lusofonia, com a valorização das respectivas identidades nacionais, mas abraçando um destino universalista que se pretendia comum. João de Barros advertiu que a propaganda dessa aproximação necessária falhará a sua missão “se não colocar os dois países fraternos tanto quanto possível em identidade, em equivalência de valores”, recusando a lamúria decadentista ou o laudatório optimista de alguns sectores da vida mental portuguesa .
O advogado Aldo de Cavalcanti Melo apresentou alguns tópicos sobre a futura Confederação Luso-Brasileira, a ser constituída por um Tratado internacional e não por uma Constituição – como defendeu Medeiros e Albuquerque –, porque, segundo ele, era celebrado entre Estados soberanos que manteriam a integridade das suas soberanias. Entre os seus fins, além da confraternização completa entre os povos das duas nações, através da língua portuguesa, propunha a harmonização jurídica progressiva, a mobilidade populacional, a equiparação do padrão monetário, o fim das barreiras alfandegárias para todos os produtos, a intensificação das trocas culturais, a equivalência dos diplomados, a intensificação da navegação ou a colaboração entre os exércitos e as marinhas na defesa nacional.
Quanto ao sistema de governo para executar as política públicas comuns, Cavalcanti Melo sugeriu a constituição de um Governo Central Confederal, composto por delegações dos Governos do Estado do Brasil e do Estado de Portugal, podendo, tal Governo Central, ser uma Delegação diplomática, uma Assembleia ou Dieta, em que cada um desses Estados tivesse os seus representantes, ou, em opção, ser exercido alternadamente pelo Poder Executivo de cada um dos Estados Confederados. As competências do Governo Central ficariam adstritas à soberania dos dois Estados Confederados, decorrendo daí a necessidade de consultar os respectivos Governos nacionais antes da execução das suas deliberações .
Conhece-se, pelo menos, como já foi referido, uma proposta de bases para a Constituição da hipotética Confederação Luso-Brasileira, da autoria de Medeiros e Albuquerque. Quanto às áreas comuns da Confederação, apontava, como mais relevantes, as seguintes: relações exteriores e representações diplomáticas, posse e administração das colónias, estado-maior confederado (artigos 2, 4 e 6); os tratados internacionais careciam de aprovação pelos Senados das nações confederadas (artigo 5); a legislação sobre negócios comuns cabia exclusivamente aos Senados das nações confederadas, mediante sanção do Presidente da Confederação (artigo 8); despesas e receitas dos serviços comuns (artigo 9); exigia-se a prévia autorização dos respectivos Senados para os empréstimos solicitados ao estrangeiro (artigo 10); as trocas comerciais entre os Países confederados ficariam livres de direitos alfandegários e os impostos internos não podiam criar nenhuma diferença entre os géneros das nações confederadas (artigo 11).
A gestão dos negócios estrangeiros e dos negócios coloniais era assegurada por duas Juntas de quatro membros cada, dois deles eleitos nos respectivos Senados, sendo a primeira Junta presidida pelo ministro do Exterior e a segunda Junta presidida pelo ministro das Colónias, a cuja República pertencer nesse ano a Presidência da Confederação. Uma grande excepção à partilha comum confederada dizia respeito às organizações militares e navais que deviam ser “absolutamente distintas”, obedecendo, no entanto, a leis e a regulamentos idênticos; em caso de guerra, o comando supremo das Forças Armadas caberia a um generalíssimo eleito pelo Estado-Maior confederado, necessitando de aprovação dos respectivos Senados (artigo 7).
Concluía, deste modo, Medeiros e Albuquerque:

“Basta pensar no território do Brasil e, na sua capacidade de absorção, para sentir que Portugal não pode manter a preponderância na nossa colonização. E quando esse elemento de união desaparecer, o nosso afastamento se acentuará. A Confederação Luso-Brasileira, grande nação americana e europeia, com possessões nas cinco partes do mundo, seria a salvação dessa admirável e miserável língua portuguesa, que é hoje a gíria confidencial de dois povinhos e voltaria a ser um dos grandes poderes literários do mundo” .

5. Considerações finais

Nas justificações das vantagens práticas da Confederação Luso-Brasileira, apresentavam-se, para Portugal, o rejuvenescimento social, a prosperidade económica ou a integridade colonial, e, para o Brasil, a solidificação da língua portuguesa, a salvaguarda dos interesses comerciais ou o maior desenvolvimento marítimo. A Confederação Luso-Brasileira, ao estabelecer uma aliança com a Espanha e as Repúblicas americanas de influência espanhola, teria, para a grande maioria dos seus defensores, como consequência civilizacional a construção de um centro de afirmação da latinidade e como consequência geopolítica e económica a formação de um poderoso bloco luso-hispano-americano.
A partir de 1924, desvaneceu-se o projecto utópico de uma Confederação Luso-Brasileira, de conteúdo mais ideológico-cultural (pan-lusitanismo, pan-latinismo) do que orgânico-funcional (união política, bloco estratégico), dado o desenvolvimento acelerado, em Portugal, de um processo político e militar de contestação ao regime demoliberal da I República, que conduziria à revolução de 28 de Maio de 1926, à Ditadura Militar (1926-1932) e à Ditadura do Estado Novo desde Abril de 1933, altura em que entrou em vigor uma nova Constituição de perfil nacionalista, autoritário e corporativista. A partir de 1930, também o Brasil seguirá progressivamente, com Getúlio Vargas, o caminho para a Ditadura, nomeada de Estado Novo em Novembro de 1937.
O contexto geopolítico mundial dos anos 30 do século XX voltava a orientar a balança de poderes para uma Guerra progressivamente generalizada ao serviço da tecnologia da morte. Não seria bom tempo para sonhos pacifistas confederais, ao serviço da paz perpétua e do bem comum. Foi preciso esperar pelo dia 17 de Julho de 1996, para que se começasse a corporizar, desde a Cimeira Constitutiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, realizada em Lisboa no Centro Cultural de Belém, um sonho de fraternidade lusófona, por meio da colaboração cultural, política, social, económica ou militar, entre Países independentes, que encontraram na língua comum o vínculo identitário mais forte.

Ibérica – Revista Interdisciplinar de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos. Universidade Federal de Juiz de Fora (Brasil), ano III, nº 12, Dezembro/2009-Março/2010, pp. 5-20
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