Adelina da Glória Paletti Berger

João Esteves

Filha do escrivão Belchior da Costa Paleta e de Ana Vitória Paleta, nasceu em 28 de Março de 1865, na freguesia de S. Sebastião, em Lagos, e foi baptizada a 27 de Janeiro de 1866. Casou com o professor José Júlio Lapelier Berger, nascido a 31 de Dezembro de 1868, na freguesia de Santa Maria de Lagos, e que presidiu, ainda durante a Monarquia, à vereação republicana do município. Por iniciativa de Adelina da Glória, então com 43 anos, realizou-se em sua casa a primeira reunião do núcleo local da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (19/2/1909), foi eleita Presidente, devido à recusa de Maria do Carmo Raimundo, e a cópia da acta enviada à dirigente nacional Ana de Castro Osório (24/2/1909). A militância terá sido intensa em 1909 e 1910: remeteu, em nome das sócias de Lagos, donativos para as vítimas do violento terramoto que abalou o Ribatejo, de forma a minorar as dificuldades das “suas consócias […], a quem ultimamente tão grande desgraça feriu” (ofício de 7 de Maio); solidarizou-se com o movimento de protesto pelo fuzilamento, em Espanha, de Francisco Ferrer (Outubro de 1909); saudou Afonso Costa pelas posições assumidas na Questão Hinton, consideradas um “acto de patriotismo por vós praticado na defesa da nossa Pátria” (Abril de 1910); e felicitou, em missiva de 9 de Julho de 1910, Miguel Bombarda pela adesão ao Partido Republicano, lembrando que se tratava de alguém “a quem muito já deve a mulher portuguesa pelos incansáveis esforços […] feitos para a libertar da nefasta e pertinaz seita dos padres” [O Mundo, 12/7/1910, p. 4, col. 1]. Empolgada com a implantação da República, deslocou-se a Lisboa e, em 27 de Outubro, acompanhou, com Inês da Conceição Conde, a direcção nacional da Liga na entrega da primeira representação aos membros do Governo Provisório. Aquando do plebiscito interno sobre a revisão dos Estatutos, que decorreu a partir de Setembro de 1910, alinhou com as posições anticlericais lideradas por Maria Veleda. Morreu em 29 de Julho de 1923, com 58 anos, em Lisboa, e o marido faleceu a 4 de Março de 1934, também na capital, na freguesia de São Sebastião, estando o republicanismo de ambos patente nos nomes atribuídos aos filhos, todos começados pela letra R: Rogério (21/11/1899), Renato (15/5/1903), Reinaldo e Roberto Paletti Berger. Seria familiar de Julieta Augusta Paletti e de Dionísia Rosa Paletti, activistas da mesma secção.

Bib.: João Esteves, A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas - uma organização política e feminista (1909-1919), Lisboa, ONG do Conselho Consultivo da CIDM, 1992; “Expediente da Liga”, A Mulher e a Criança, n.º 1, Abril de 1909, p. 5, col. 1 e p. 6, col. 2; “Expediente da Liga”, A Mulher e a Criança, n.º 2, Maio de 1909, p. 13, col. 2; “Expediente da Liga - Sessão de protesto pelo fuzilamento de Ferrer”, A Mulher e a Criança, n.º 8, Novembro de 1909, pp. 11-12; “Saudações ao sr. dr. Afonso Costa - Liga das Mulheres Republicanas de Lagos”, O Mundo, 3/5/1910, p. 2, col. 1; “Expediente da Liga - Julgamento importante”, A Mulher e a Criança, n.º 12, Maio de 1910, p. 13, col. 2 e p. 14, col. 1; “Dr. Miguel Bombarda”, O Mundo, 12/7/1910, p. 4, col. 1; “Expediente da Liga”, A Mulher e a Criança, n.º 17, Outubro de 1910, p. 12, col. 1; “Expediente da Liga”, A Mulher e a Criança, n.º 18, Novembro de 1910, p. 12, col. 1; e informações gentilmente prestadas pela Dr.ª Clara Berger, que dispõe de vasta documentação acerca da história dos seus antepassados.

In Dicionário no Feminino (sécs. XIX-XX), Lisboa, Livros Horizonte, 2005
Direcção: João Esteves e Zília Osório de Castro

Unless otherwise stated, the content of this page is licensed under Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License