Inês da Conceição Conde

João Esteves

Professora de instrução primária, foi, apesar da sua condição modesta, activista de referência da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tanto na Praia da Luz (Lagos), onde presidiu ao núcleo local, quer em Lisboa. Ainda no Algarve, contribuiu para subscrições, felicitou o Directório pela adesão de Miguel Bombarda ao Partido Republicano (Julho de 1910) e responsabilizou-se, juntamente com o marido, pelo funcionamento de uma escola gratuita para o sexo feminino na Praia da Luz, subsidiada pela Liga através da quotização das sócias da localidade. Em Setembro de 1910, chegou a ter a frequência de 64 crianças e, devido ao trabalho desenvolvido, recebeu constantes elogios, ao ponto de Maria Veleda a considerar como “uma das senhoras que melhores serviços tem prestado à democracia, pelo seu amor à instrução”. Também a revista Alma Nacional, de António José de Almeida, enalteceu o labor desta “mulher, saída do Povo”, que conseguiu sustentar uma escola onde, “através de ásperos sacrifícios, se ministra a primeira educação moral e a primeira instrução aos desvalidos da sorte”, e a revista A Mulher e a Criança lembrou que, “se em todas as pequenas terras de província pudéssemos contar com uma alma como a sua, a causa da liberdade estaria ganha”. No primeiro trimestre de 1910, ter-se-á deslocado a Lisboa para obter a habilitação como professora do método João de Deus, tendo sido acolhida por Maria Barata e Guilhermina de Battaglia Ramos, viúva do poeta, formada por Manuel Jacinto e apoiada por Frederico Caldeira e Elísio de Melo, da Associação das Escolas Móveis. Quando eclodiu a República, participou nas reuniões realizadas em Lisboa, secretariou a histórica assembleia-geral de 26 de Outubro de 1910 e acompanhou a direcção da Liga na entrega das suas reivindicações, e das listas solicitando a Lei do Divórcio, ao primeiro governo republicano. Entre 21 de Novembro de 1910 e 6 de Abril de 1911, esteve como docente da Associação das Escolas Móveis em Pouca Pena (Soure). Aderiu depois à Associação de Propaganda Feminista e, enquanto subscritora da Obra Maternal, desempenhou, em 1914, as funções de 2.ª Secretária da Mesa da Assembleia Geral. Em Abril de 1916, e quando já se encontrava doente, a APF abriu uma subscrição em seu benefício, de forma a custear o regresso ao Algarve, para junto dos irmãos Jaime, cabo-de-mar em Sagres, e José da Conceição Conde, que vivia em Lagos, ambos assinantes do jornal A Semeadora. Faleceu em 1917, vítima de tuberculose. Então, e mais uma vez, a imprensa feminista enalteceu as suas qualidades de propagandista e de “apaixonada alma de revolucionária”.

Bib.: António de Deus Ramos Ponces de Carvalho, Éléments pour l’Histoire d’une École de Formation des Instituteurs de Maternelle, Lisboa, 1991, p. 56; João Esteves, A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas - uma organização política e feminista (1909-1919), Lisboa, ONG do Conselho Consultivo da CIDM, 1992; João Esteves, As Origens do Sufragismo Português, Lisboa, Editorial Bizâncio, 1998; João Esteves, “Conde, Inês da Conceição”, Dicionário de Educadores Portugueses (dir. de António Nóvoa), Porto, Edições ASA, 2003, pp. 384-385; “A catástrofe do Ribatejo”, A Mulher e a Criança, n.º 2, Maio de 1909, p. 8, col. 2; “Expediente da Liga”, A Mulher e a Criança, n.º 2, Maio de 1909, p. 14, col. 1; “Expediente da Liga - […] - Comissão da Luz”, A Mulher e a Criança, n.º 3, Junho de 1909, p. 13, col. 2; “Informações, respostas e indicações”, A Mulher e a Criança, n.º 10, Janeiro de 1910, p. 12, col. 2; “Vida Republicana - Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, O Mundo, 14/2/1910, p. 2, col. 3; “Festas Democráticas”, O Mundo, 7/3/1910, p. 1, cols. 3-5; “Pela Infância - Obra Maternal”, O Mundo, 20/3/1910, p. 4, col. 2; “Uma benemérita”, Alma Nacional, n.º 7, 24/3/1910, p. 107; “Expediente da Liga - Sessão comemorativa do 1.º aniversário da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, A Mulher e a Criança, n.º 11, Abril de 1910, pp. 10-14; “Expediente da Liga - […] - Expediente da Obra Maternal”, A Mulher e a Criança, n.º 11, Abril de 1910, p. 14, col. 2; “Expediente da Liga - […] - Expediente da comissão de propaganda da Liga”, A Mulher e a Criança, n.º 12, Maio de 1910, p. 14, col. 1; “Dr. Miguel Bombarda”, O Mundo, 7/7/1910, p. 1, col. 2; “Expediente da Liga”, A Mulher e a Criança, n.º 15, Agosto de 1910, p. 12, col. 1; “Pela instrução - Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, O Mundo, 12/9/1910, p. 2, col. 7; “Expediente da Liga”, A Mulher e a Criança, n.º 16, Setembro de 1910, p. 11, col. 2 e p. 12, col. 1; “Vida Republicana - A Liga Republicana das Mulheres reúne e delibera”, O Mundo, 21/10/1910, p. 2, col. 6; “Reclamações Feministas - A Liga Republicana das Mulheres em acção”, O Mundo, 27/10/1910, p. 3, col. 7; “Expediente da Liga”, A Mulher e a Criança, n.º 17, Outubro de 1910, pp. 10-12; “Expediente da Liga”, A Mulher e a Criança, n.º 18, Novembro de 1910, p. 12, col. 1; “Expediente da Liga - […] - Subscrição aberta pela Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, em benefício das vítimas da Revolução”, A Mulher e a Criança, n.º 20, Janeiro de 1911, p. 10, col. 2; “Expediente da Liga - Relatório”, A Mulher e a Criança, n.º 21, Fevereiro de 1911, pp. 10-11; “Obra Maternal”, A Madrugada, n.º 25, 31/8/1913, p. 3, col. 4 e p. 4, col. 1; “Lista das sócias propostas pela Comissão Administrativa da Obra Maternal, para fazerem parte dos corpos gerentes, no ano de 1914”, A Madrugada, n.º 29, 31/12/1913, p. 4, col. 1; “Obra Maternal”, A Madrugada, n.º 30, 31/1/1914, p. 2, col. 3; “Inês da Conceição Conde”, A Semeadora, n.º 22, 15/4/1917, p. 4, col. 3, n.º 23, 15/5/1917, p. 4, col. 3 e n.º 24, 25/6/1917, p. 4, col. 3.

In Dicionário no Feminino (sécs. XIX-XX), Lisboa, Livros Horizonte, 2005
Direcção: João Esteves e Zília Osório de Castro

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