Madeleine Pelletier e o movimento feminista em Portugal

João Esteves

O movimento feminista em Portugal foi particularmente activo na segunda década do século XX e, embora esteja por estudar o seu relacionamento com o exterior, sabe-se que Madeleine Pelletier foi uma das personalidades estrangeiras que com ele manteve contactos, quer quando se deslocou a este país na sequência da implantação da República, ocorrida a 5 de Outubro de 1910, quer mediante correspondência e permutas com as principais organizações de mulheres.
Informada de que o novo regime pretendia conceder o voto às mulheres, Madeleine Pelletier viajou, logo em Novembro, para Portugal, de forma a inteirar-se do que realmente se passava, tendo mantido contactos privilegiados com alguns dos principais políticos e governantes republicanos e com as agremiações femininas; assistiu a reuniões; e foi homenageada pela Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (1908-1919) , em 11 de Dezembro .
Recebida por Teófilo Braga, presidente do Governo Provisório e defensor assumido do voto feminino restrito, para não prejudicar a República e de forma a ser aceite pelo Parlamento, e por Bernardino Machado, ministro dos Negócios Estrangeiros, confirmou a possibilidade de se vir a atribuir o sufrágio a uma pequena elite de mulheres, tendo disso dado conta em artigos publicados na imprensa portuguesa e francesa . Chegou mesmo a escrever que as portuguesas obteriam «justiça sem combate, e talvez mesmo sem necessidade de argumentar» , acalentando a esperança de que a França seguisse o mesmo exemplo.
Na sua estada em Portugal, teve também a oportunidade de se encontrar com Magalhães Lima, Grão-Mestre da Maçonaria, que lhe prometeu, caso fosse eleito deputado, defender o voto feminino no Parlamento, tendo-a convidado para uma sessão comemorativa do triunfo da República; enquanto socialista, visitou os dirigentes desse partido; e manteve contactos com as principais feministas portuguesas, nomeadamente com Ana de Castro Osório (1872-1935) , considerando-as frouxas nas suas reivindicações e demasiado confiantes na vontade política dos homens. Aliás, as suas palavras demonstram alguma desconfiança em relação à República, talvez demasiado burguesa.
De regresso ao seu país, discorreu em Paris, na sala Procope, sobre a revolução republicana e as relações entre o feminismo, o livre-pensamento e a maçonaria e, quando em Portugal se intensificou a campanha a favor do sufrágio, em carta a Ana de Castro Osório, de 23 de Julho [de 1911], a médica informou que em França também se tentava obter o voto «aux commerçantes et aux ouvrières qui sont inscrites sur les listes electorales pour les Conseils de Prud’hommes et les Tribunaux de Commerce» , o que não abrangeria mais de dois a três mil casos. Na mesma missiva, anunciou o envio da brochura sobre Le droit à l’avortement, considerando que se tratava de um tema integrante do seu feminismo.
Na qualidade de maçon, respondeu, ainda que de forma sucinta, ao questionário organizado por Ana de Castro Osório, em 1913, sobre o papel da mulher na Maçonaria Portuguesa, considerando que «la femme devrait être admise dans toutes les loges; mais si vous ne pouvez obtenir cette égalité, la loge d’adoption vaut mieux que la maçonnerie irrégulière» ; e manteve, com certeza, contactos estreitos com o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (1914-1947) , já que lhe enviou a sua obra teatral In Anima Vili e os livros Un crime scientifique e Les femmes peuvent-elles avoir du Génie? .

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