Mulheres Operárias

Paulo Guinote

A questão do trabalho feminino é uma das que tem merecido um tratamento menos atento, e mais vulnerável aos lugares-comuns, do que deveria no contexto da pesquisa histórica sobre a Mulher. O lugar-comum dominante passa pela afirmação da dicotomia tradicional mulher/espaço privado e homem/espaço público, da qual decorre logicamente que à mulher esteve longamente reservado o domínio da domesticidade e da tarefas a ela associadas, enquanto ao homem estaria reservada a função de ganha-pão e o trabalho graças ao qual era conseguido o sustento da família mais ou menos alargada. Esta visão é profundamente simplista e como tal profundamente errónea, induzindo quem a ela adere à partilha de um conjunto de crenças e representações do universo laboral feminino que está bem longe da realidade efectiva das coisas e que resulta de uma série de arquétipos de género elaborados pela ideologia burguesa dominante desde o século XIX. A verdade é que, desde tempos imemoriais, a generalidade das mulheres sempre partilhou as tarefas laborais dos homens, principalmente no mundo rural pré-industrial (Segalen, 1983), mas de igual forma nos espaços urbanos e com maior destaque ainda com a industrialização. Existe é a necessidade de distinguir quem trabalha, onde e em troco de remuneração ou não. É certo que entre os grupos sociais de topo das hierarquias sociais, o trabalho feminino, remunerado, exterior ao lar foi algo sempre visto com desconfiança e fortemente desencorajado, mas isso não é válido para a grande maioria das mulheres que viveram desde os tempos pré-históricos até hoje, e não se fala apenas do trabalho doméstico; quando as fontes e os estudos nos falam, por exemplo, em camponeses no masculino (Duby, 1980) para a Idade Média estão por vezes apenas a generalizar uma realidade que, nos campos, era bem mais rica. O trabalho rural da mulher é algo que atravessou os séculos e que não pode ser ignorado, assim como em alguns sectores do mundo urbano do trabalho, desde o artesanato ao pequeno comércio, a presença feminina é difícil de ocultar se a não quisermos voluntariamente esconder (Pérnoud, 1982).
Mas seria com a industrialização que a participação das mulheres “do povo” no mercado de trabalho se tornou mais visível, porque, como novo tipo de trabalho que foi, deslocado para unidades fabris mais ou menos afastadas do domicílio, concorrendo mais do que complementando o trabalho masculino, deixou de poder ser ignorado. É bem conhecido o recurso extensivo a mão de obra feminina e infantil, por ser mais barata, por muitos empresários industriais, sempre que o que estava em causa eram funções para as quais não eram necessárias especiais qualificações profissionais. Da mesma forma, é conhecida a animosidade e o combate que, desde muito cedo, as organizações sindicais, maioritária ou exclusivamente formadas por homens, dirigiram contra o trabalho feminino. Se em termos familiares, no crescente proletariado urbano, o trabalho assalariado das raparigas e mulheres era bem-vindo e ajudava a aumentar o orçamento familiar disponível, no plano dos direitos dos trabalhadores que os sindicatos defendiam, a concorrência da mão-de-obra feminina era uma ameaça aos postos de trabalho e aos níveis salariais. Existe mesmo quem se interrogue se o século XIX não terá sido «o século da operária» (Rebérioux, 1984), embora pelos números disponíveis, a indústria nunca tivesse sido a principal ocupação feminina no mundo do trabalho: «na maior parte dos países ocidentais em curso de industrialização, o serviço doméstico ultrapassava os têxteis como sector empregador das mulheres. Em Inglaterra, a primeira nação industrial, 40% das mulheres trabalhadoras, em 1851, eram criadas, enquanto apenas 22% eram operárias têxteis; em França, os números comparáveis de 1866 eram 22% no serviço doméstico e 10% nos têxteis (…). Pelo contrário, trabalhavam mais mulheres nas áreas “tradicionais” da economia do que em fábricas industriais» (Scott, 1994, pp. 448-449). Em Portugal, estas questões colocaram-se com um grande desfasamento temporal em relação às nações ocidentais que experimentaram uma industrialização de primeira vaga. Ao longo da maior parte do século XIX, é demasiado prematuro começar a falar-se sequer de um proletariado ou operariado, quanto mais das questões levantadas pela participação feminina nesse sector de actividade. Mas, gradualmente, o desenvolvimento industrial foi acontecendo e com ele o aparecimento de um crescente operariado feminino, mesmo quando (a)parece ignorado quase por completo em alguns estudos sobre o movimento operário, em virtude das próprias limitações das fontes. (AA.VV, 1981; Cabral, 1977). No entanto, os dados existem, certamente de forma esparsa, desde que foram sendo feitos inquéritos à actividade industrial e não são de acesso especialmente problemático a partir do início do século XX, assim como estão disponíveis nos diversos recenseamentos que incluem a classificação da população activa. Em Portugal, como em outras paragens, a mobilização dos homens em idade adulta para a Grande Guerra de 14-18 significou uma oportunidade de ingressar no mundo do trabalho, nem sempre de forma voluntária, mas muitas vezes por simples necessidade, em virtude da saída do homem “ganha-pão” do agregado familiar. De acordo com os dados da conhecida Estatística Industrial de 1917 publicados no Boletim do Trabalho Industrial nº 116 (cf. Guinote, 1990, 190), 34% da mão de obra na indústria era feminina, sendo que entre os menores de idade era de 44,6%, mas apenas de 4,8% entre os mestres. Em termos distritais, entre aqueles que tinham um operariado mais numeroso, a presença feminina era bem mais elevada do que a média em Braga com 55,5%, em Faro com 49,7% e no Porto com 46,8%; neste aspecto, Lisboa ficava algo atrás com apenas 28,5%, valor que descia ainda mais se tomarmos com base de cálculo apenas a cidade (24,1%). Contudo, o posterior regresso dos soldados e a crise económica instalada fariam com alguns dos ganhos conseguidos fossem de novo perdidos, a menos que a posição fosse mantida graças a concessões salariais. Mas essa evolução, com a retracção da participação feminina na população activa é uma tendência normal na Europa do período entre-guerras (Guinote, 1997, I, 253). A verdade é que a condição de operária ainda era vista como algo «pejorativo, sinónimo de indivíduo sem educação, de mulher perdida, de mão desnaturada. Os próprios trabalhadores as olhavam com desprezo como sempre á beira de venderem, não só os braços, mas também o corpo» (citado por Guinote, 1997, I, pp. 272-273). A relação problemática dos sindicatos com o operariado feminino seria ainda um traço comum deste período inicial do movimento operário e sindical português e resultaria exactamente daquilo que era percepcionado como uma concorrência desleal por parte das mulheres: «A má situação em que a mecânica veio colocar os operários e as dificuldades económicas das sociedades que de dia para dia caminham para um desenlace fatal, obriga as mulheres, não só das classes operárias como também da baixa burguesia, a procurar um meio de vida nas indústrias e artes, fazendo assim concorrência aos homens. Examinando bem, vemos que a concorrência das mulheres, em lugar de melhorar a condição económica das famílias piora-as. Antigamente em muitas indústrias em que só homens trabalhavam, os salários eram maiores, as mulheres tratavam dos arranjos domésticos a vida era mais barata. Hoje, a mulher trabalhando juntamente com o homem na fábrica já tem que comer na taberna, dá os filhos a criar e dá a fazer muitos trabalhos domésticos. Além disso, com a entrada da mulher na fábrica, baixaram os jornais, e hoje em dia trabalham os dois para ganhar tanto quanto outrora ganhava o homem» (José Luís Simões em O Eco Metalúrgico, 4/Jul/1987, transcrito em Mónica, 1982, p. 150). Emílio Costa, que se recusava a ser apresentado como um conservador, não deixaria de reprovar o trabalho (operário) feminino com uma argumentação próxima do modelo mental burguês oitocentista (Costa, 1928). Mas muitas queixas eram resultantes da predominância de uma mentalidade que, mesmo nos meios operários, era naturalmente misógina e via na emancipação económica das mulheres um perigo para os papéis masculinos e femininos tidos como tradicionais: «É para lamentar o estado em que se encontra a indústria corticeira nesta infeliz terra, pois aqui, os operários corticeiros estão a ser substituídos por mulheres, em especial os quadradores e rolheiros. (…) Estamos a ver que daqui a pouco teremos que ir para casa fazer meia, enquanto as mulheres na oficina se estiolam e morrem de fome» (O Corticeiro de 14/Dez/1912 transcrito em Mónica, 1982, pp 140-141). Muitas das queixas provinham do sector corticeiro, onde a mulher ia ganhando posição, mas um inquérito publicado em 1916 sobre a indústria têxtil (Boletim do Trabalho Industrial nº 105) demonstra como neste sector muitas fábricas recorriam quase em exclusivo ao trabalho feminino. De acordo com um estudioso do movimento operário, muito marcado pela literatura do movimento sindical da cintura industrial de Lisboa «por meados da década de 20 a questão de uma presença mais maciça da mulher no trabalho fabril torna-se de tal maneira evidente que o movimento sindical começa a ensaiar algumas respostas específicas para o problema» (Freire, 1992, p. 179), sendo que essas respostas passavam pela defesa dos direitos sociais e laborais das mulheres (protecção em virtude do seu menor poder físico para certas tarefas, direitos relativos à maternidade) que, de forma paradoxal, as podiam tornar menos atractivas para os empregadores, apesar da sua remuneração ser, por norma, mais baixa. Os números sobre a disparidade salarial entre os trabalhadores dos dois sexos são bem explícitos: com base numa média obtida para o período de 1923-32 a partir dos dados do Boletim do Trabalho Industrial e do Anuário Estatístico, no Porto, em 1925, as operárias ganhavam entre 47% (sector da alimentação, ramos dos líquidos) e 79% (sector dos tabacos) dos seus colegas masculinos; em Lisboa a variação era menor, mas não mais favorável, entre 46% no sector do vestuário e os 63% no dos tabacos (Guinote, 1997, II, p. 30). Estes valores têm um significado duplo pois, se confirmam que o trabalho feminino era pior remunerado e que podiam funcionar como concorrência desleal ao trabalho masculino, também demonstram que essa concorrência não tinha feito descer o salário dos operários. Outro aspecto das críticas sindicais, resultava de as operárias serem tidas como mais conservadoras e de difícil mobilização, como denunciariam muitas publicações de carácter sindical e o constataria a activista republicana Ana de Castro Osório junto das trabalhadoras da indústria conserveira de Setúbal (Osório, 1911). Mas nem todas as vozes sindicalistas seriam desfavoráveis á presença feminina nas fábricas e em muitos casos interviriam em defesa dos seus direitos e contra os abusos das entidades patronais (cf. Mónica, 1982, pp. 144-147) ou dos próprios companheiros de trabalho (Idem, pp. 142-143) e existem mesmo testemunhos da participação feminina no movimento sindical nas primeiras décadas do século XX (Dias, 2000). Só que na generalidade dos casos, a entrada da mulher para o mercado de trabalho, em especial o fabril, era feito por imperativos de ordem económica, desde a a rapariga solteira que se via na contingência de sobreviver, casos os pais desaparecessem ou ficassem incapacitados de prover o sustento do agregado, até à mulher casada, cujo marido não conseguisse assegurar o equilíbrio do orçamento familiar. As consequências negativas eram conhecidas – em especial a desprotecção em que ficavam os filhos menores – mas nem sempre existia outra opção.
Uma autora que tratou recentemente a presença das mulheres no mercado de trabalho em Portugal (Baptista, 1999) fez a compilação dos dados publicados nos recenseamentos de 1890 a 1940 e permite-nos, dessa forma, acompanhar a presença feminina no total da população e nos vários sectores de actividade. Essa presença na população activa era de 36,4% em 1890, descendo de acordo com os censos seguinte para cerca de 27% até 1930 (embora nesta data chegasse quase aos 50% se fossem incluídos os familiares que ajudavam os respectivos chefes) e para menos de 213% em 1940 (Baptista, 1999, p. 38). Estes valores são, curiosamente, muito próximos daqueles que nos são fornecidos sobre a presença de raparigas e mulheres no sector das indústrias transformadoras, de obras públicas e construção: 35,2% em 1890, 29,7% em 1900, 28,3% em 1920, 21,5% em 1930 (mas 44,9% se forem incluídas as familiares que auxiliavam o respectivo chefe) e 23,5% em 1940. Em números absolutos isto significava um conjunto a oscilar entre cerca de 135.000 e 155.000 “operárias” numa acepção do termo que tem tanto de inclusiva (muitas destas mulheres podiam não o ser propriamente), como de exclusiva (pois não contempla situações de trabalho operário possivelmente classificadas em outros sectores). Nas duas maiores cidades do país, a situação tinha substanciais diferenças pois, enquanto em Lisboa, os valores eram inferiores à média, no Porto passava-se o inverso. No entanto, é curioso que no censo extraordinário de 1925 realizados nestas cidades, a situação se inverte com Lisboa a apresentar uma população activa feminina de 44% no sector da indústria transformadora contra apenas 34% no Porto. No censo de 1930, quando são excluídas as referidas familiares que auxiliavam os chefes de família, os valores são respectivamente de 21% e 33,8%, contra 43,2% e 49,3% quando elas são incluídas. O significado deste diferencial pode ter várias interpretações. Em termos simples, isto pode traduzir a grande importância das pequenas indústrias de carácter (quase) doméstico em que as mulheres surgem como auxiliares e quase por certo sem uma remuneração claramente estabelecida. Nesse sentido, não são proletárias assalariadas, embora não deixem de desempenhar esse tipo de função. Para além disso, isto significa que a população activa neste sector, se usarmos uma acepção abrangente para a definir, era formada quase em 50% por mulheres. A desagregação do sector da indústria transformadora em subsectores só acontece a partir do censo de 1925 para as cidades de Lisboa e do Porto e do de 1930 para o conjunto nacional. Quando isso acontece (1930) é possível verificar que o ramo dos têxteis e vestuário é o mais feminizado (49% da população activa, mesmo na acepção mais restrita que exclui as “familiares”, seguindo-se o do tabaco (43%) e o do papel (34%). Aqueles em que se nota uma maior diferença entre o valor dos dois tipos de cálculo da população activa era o dos coiros e peles (de 39% para apenas 5%), o das madeiras e mobiliário (de 37% para 1%), o da construção civil (de 37% para 2%), da metalúrgica, metalomecânica e afins (34% para 2%) e o da energia/gás, electricidade e água (de 35% para 2%). Ou seja, a mão-de-obra feminina na indústria é ainda maioritariamente usada em pequenas indústrias, domésticas, em que oficialmente só o chefe é remunerado pelo seu trabalho. A partir de 1940, só aparecem aparentemente referenciadas como trabalhando nos diversos sectores, as mulheres que efectivamente aufeririam um salário, mas a tendência global é a mesma no sector dos têxteis e vestuário (64%), assim como no dos tabacos (55%), na indústria do papel existia uma redução de 34% para 18%, mas isso era compensado pela subida verificada nas indústrias químicas (de 12% para 23%), nas da alimentação e bebidas (de 20% para 29%) e na da cortiça (de 10% para 28%). Em números absolutos, e assumindo a acepção mais curta de operariado como apenas operariado assalariado trabalhando fora do domicílio, em Portugal tinha-se passado de cerca de 100.000 operárias em 1930 para mais de 130.000 em 1940 (Baptista, 1999, p. 94). O quotidiano laboral destas mulheres era extremamente duro, acumulando com as tarefas domésticas do lar que continuavam a ter de assegurar na generalidade dos casos, apesar de no mundo operário se irem inscrevendo algumas práticas de gestão partilhada das diversas responsabilidades e funções em presença. Ana Nunes de Almeida retrata esse tipo de famílias operárias, em que todos trabalham e cooperam numa estratégia comum de sobrevivência, mesmo quando a mulher não trabalhava fora de casa, frequente por exemplo no sector corticeiro: «o grupo doméstico corticeiro partilha, em primeiro lugar um espaço físico. Este corresponde a um alojamento precário e apertado, passageiro, em geral alugado, composto de 1, 2 ou no máximo 3 apertadas divisões. Em cada uma destas acanhadas residências fixa-se contudo um grupo familiar constituído, regra geral, por um casal e os seus filhos solteiros a que se juntam, por vezes também, um filho casado, uma pai viúvo, uma tia solteira. (…) o grupo doméstico operário assume plenos poderes na gestão da força de trabalho que os vários membros da família representam, bem como a gestão dos proventos que daí resultam. As modalidades de entrada de um adulto (homem e mulher) ou de uma criança no mercado de trabalho, por exemplo, não são um acto isolado mas o resultado da presença de um grupo doméstico capaz de produzir uma concertada estratégia de sobrevivência» (Almeida, 1993, p. 96). Ao contrário do que seria de esperar, em virtude do retorno a uma ideologia tradicionalista que se aponta como trave-mestra do ideário salazarista, a presença feminina no sector industrial e no seio do operariado não pararia de crescer a partir do pós-guerra e de meados do século XX. Com efeito, durante o Estado Novo, em especial a partir do momento em que se dá finalmente algum arranque industrial do país, que se faz sentir com mais impacto a partir dos anos 60– o que coincide com a Guerra Colonial –, mas que abrange desde a década de 50 até à de 70, em vez do arquetípico e mitologizado, em diversos quadrantes, regresso da mulher operária ao lar, o que se dá é um movimento diferente, mais próximo de alguma segregação profissional no local de trabalho, com a as funções menos qualificadas e pior remuneradas a serem entregues às mulheres (fenómeno já há muito notado e descrito e não apenas para o sector industrial): «Na indústria, são destinadas ás mulheres as tarefas menos qualificadas, mais particularizadas, repetitivas e monótonas (que caracterizam as montagens em série), com elevada componente manual, mais sedentárias e “menos responsáveis”» (Caetano, 1986, p. 390). O reforço da emigração masculina e a ida de muitos homens jovens para a guerra podem explicar parte desse movimento ascendente que se constata nas estatísticas disponíveis e que passa pela evidência de que «a mulher, cada vez mais, se emprega na indústria, desempenhando assim um papel importante na produção da riqueza nacional» (Idem, p. 384), mesmo se o seu emprego é, por via de regra, mais precário, pior remunerado e menos qualificado do que o dos homens, tendendo a concentrar-se nos sectores mais tradicionais com baixos níveis de formação profissional e estar quase ausente dos novos sectores em ascensão como a metalomecânica e a construção e reparação naval. O ambiente típico do operariado feminino continuaria a ser o do sector têxtil onde, da península de Setúbal ao vale do Ave, as unidades fabris seriam compostas por quase 100% de operárias, com raros cargos de chefia intermédia a serem entregues a mulheres e virtualmente nenhum cargo de topo. As razões para esta situação são por demais conhecidas, e mesmo em 1969 já não passava de repetição, escrever-se que «o certo é que se levantam consideráveis obstáculos ao trabalho das mulheres, o que inevitavelmente tem influência na sua rentabilidade profissional, dificultando-lhes, por consequência, o acesso a posições de relevo. (…) Por outro lado, na vida profissional, têm elas de lutar contra preconceitos enraizados, que, é certo, subsistem em apreciável medida porque, em regra e pelas razões que vêm a ser apontadas, as mulheres revelam menores aptidões do que os homens para o desempenho de cargos de responsabilidade» (Carlos, 1969, pp. 46-47). Neste aspecto, as transformações socio-políticas operadas pelo 25 de Abril de 1974, em particular no plano da obtenção de um conjunto assinalável de direitos sociais e laborais, não trariam profundas alterações ao panorama anterior relativo à presença da mão-de-obra feminina no sector da indústria transformadora. Para além da maior parte da população activa feminina se encontrar ainda ligada à agricultura e ao mundo rural, «os sectores que em 1980 apresentavam as maiores taxas de feminização caracterizavam-se por serem os mais arcaicos e de baixa produtividade, por terem as tarefas mais monótonas e por exigirem um trabalho mais intenso» (Covas, 1993, p. 191). Acompanhando a evolução da própria estrutura económica portuguesa, a mão de obra feminina passaria, nas últimas décadas do século XX, directamente do sector primário para o terciário, mantendo-se o operariado feminino circunscrito à indústria têxtil e de calçado (72,5% da mão de obra assalariada neste sector em 1994) e relativamente reduzido em outros sectores da indústria (por regra abaixo dos 30%, no conjunto da restante indústria). Já em pleno século XXI, a tendência parece manter-se, com apenas 22% da população activa feminina a ter emprego nas indústrias transformadoras, de acordo com os dados do Inquérito ao Emprego de 2000 e a taxa de feminização dos sectores designados como “Operários, artífices e trabalhadores similares” e “Operadores de instalações e máquinas e trabalhadores da montagem” a manter-se nos 22,4% e 23,2%, respectivamente (AAVV, 2004, p. 74, dados obtidos a partir das Estatísticas do Emprego do INE). Actualmente, com a crise do sector têxtil em Portugal, o maior empregador de operárias nos últimos 100 anos, e do seu modelo baseado no trabalho feminino barato, a “proletarização” da mão-de-obra feminina acabou por terciarizar-se e deslocar-se tanto para o ramo das empregadas de lojas comerciais e de grandes superfícies, como para o chamado teletrabalho (Rebelo, 2002). Na prática, a figura da operária fabril tradicional, como nos foi retratada (Magalhães et alli, 1991), tende a desaparecer, mesmo se permanecem os seus problemas fundamentais de articulação entre a necessidade de um emprego e as obrigações de natureza familiar e doméstica (Torres, 2004).

Bibliografia

AAVV (1974), Women at Work. Ontario, 1850-1930. Toronto: Canadian Women’s Educational Press.
AAVV (1981), O Movimento Operário em Portugal. Lisboa nº 67-68-69 da revista Análise Social.
AAVV (1986a), A Mulher na Sociedade Portuguesa. Actas do Colóquio. Coimbra: Faculdade de Letras – Instituto de História Económica e Social.
AAVV (1986b), Mulheres em Portugal. Lisboa, nº 92-93 da revista Análise Social.
AAVV (1987a), Becoming Visible – Women in European History. Boston: Houghton Mifflin.
AAVV (1987b), VI Jornadas Interdisciplinarias sobre la Mujer. El Trabajo de las Mujeres – Siglos XIX-XX. Madrid: Universidad Autonoma de Madrid.
AAVV (2004), A Igualdade de Género em Portugal 2003. Lisboa: CIDM.
Alexandre Vieira (1974), Para a História do Sindicalismo em Portugal. Lisboa: Seara Nova.
Alvaro Soto Carmona (1984), “Cuantificacion de la Mano de Obra Feminina (1860-1930)” in La Mujer en la Historia de España . Siglos XVI-XX. Madrid: Universid Autonoma de Madrid, pp. 279-298.
Ana Nunes de Almeida (1993), A Fábrica e a Família – Famílias Operárias no Barreiro. Barreiro: Câmara Municipal do Barreiro.
Anália Cardoso Torres (2004), Vida Conjugal e Trabalho – Uma Perspectiva Sociológica. Oeiras: Celta Editora.
Anne Marie Emonts (2001), «Onde há Galo não canta Galinha». Discursos Feminos, Feministas e Transgressivos nos Anos Vinte em Portugal – O Caso do Suplemento Literário e Ilustrado de A Batalha (1923-1927). Lisboa: ONGCCCIDM.
Anuário Estatístico (vários anos).
Boletim do Trabalho Industrial (vários anos, em especial os nºs 105 e 106)
Censos da População (vários anos).
Drª Palma Carlos (1969), “A Mulher e o Trabalho” in A Mulher na Sociedade Contemporânea. Lisboa: Prelo, pp. 41-59.
Emílio Costa (1928), As Mulheres e o Feminismo. Lisboa: Separata da Seara Nova.
Georges Duby (1980), Guerreiros e Camponeses – Os primórdios do crescimento económico europeu (séc. VII-XII). Lisboa: Estampa.
Glória Rebelo (2002), Trabalho e Igualdade - Mulheres, Teletrabalho e Trabalho a Tempo Parcial. Oeiras: Celta Editora.
Georges Duby e Armand Wallon (1992), Histoire de la France rurale, tome 1 : Des origines à 1340. Paris: Éditions du Seuil.
Jane Lewis (1987), Labour & Love. Womens’s Experience of Home and Family – 1850-1940. Oxford: Basil Blackwell.
Joan W. Scott (1994), «A mulher trabalhadora » in História das Mulheres – O século XIX. Porto: Afrontamento, vol 4, pp. 443-475.
João Freire (1992), Anarquistas e Operários. Ideologia, ofício e práticas sociais: o anarquismo e o operariado em Portugal (1900-1940). Porto: Afrontamento.
José Henrique Dias (2000), “Mulheres no Movimento operário nos Alvores da Primeira República” in Faces de Eva-Estudos sobre a Mulher. Lisboa: Edições Colibri/UNL, nº 3, pp. 61-79.
Madeleine Rebérioux (1984), « L’ouvrière » in Misérable et Glourieuse – La Femme du XIX siècle. Bruxelles: Éditions Complexe, pp 59-78.
Manuel Villaverde Cabral (1977), O Operariado nas Vésperas da República. Lisboa: GIS/Presença.
Manuela Silva (1983), O Emprego das Mulheres em Portugal – A “mão invisível” da discriminação sexual no emprego. Lisboa: Afrontamento.
Maria das Mercês de Mendonça Covas (1993), “Evolução da Participação da Mulher Portuguesa no mercado de trabalho ao longo das últimas décadas” in Estudos sobre as Mulheres em Portugal. Lisboa: CIDM, pp. 187-210
Maria Filomena Mónica (1982), A Formação da Classe Operária Portuguesa – Antologia da Imprensa Operária (1850-1934). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Maria Goretti Matias (1986), “A Mulher Operária: as Tabaqueiras (1886-1890)” in Boletim dos Estudos Operários. Lisboa: ICS, nº 9.
Maria José de Sousa Magalhães et alli (1991), História de Vida de uma Operária da Indústria Corticeira. Lisboa: ONGCCCIDM.
Martine Segalen (1983), Love and Power in the Peasant Family. Oxford: Basil Blackwell.
Nuno Luís Madureira et alli (2001), História do Trabalho e das Ocupações, Vol. I – A Indústria Têxtil. Oeiras: Celta Editora.
Paulo Guinote (1990), “A Sociedade: Da agitação ao desencanto” in Portugal Contemporâneo. Lisboa: Publicações Alfa, vol. 3, pp. 171-230.
Paulo Guinote (1997), Quotidianos Femininos (1900-1933). Lisboa: ONGCCCIDM.
Portugal. Situação das Mulheres (vários anos). Lisboa: CIDM.
Régine Pernoud (1982), La Femme au temps des cathédrales. Paris: LGF – Le Livre de Poche.
Virgínia do Rosário Baptista (1999), As Mulheres no Mercado de Trabalho em Portugal: Representações e Quotidiano (1890-1940). Lisboa: ONGCCCIDM.

Unless otherwise stated, the content of this page is licensed under Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License