X - O Zé Povinho da albarda ...

Amadeu Carvalho Homem

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Rafael Bordalo Pinheiro deu o nome de Zé Povinho à figura simbólica através da qual pretendeu captar a verdade íntima dos mais numerosos, pobres e anónimos portugueses daquele seu tempo. Nascido no Verão de 1875, foi desenhado no número 5 do jornal A Lanterna Mágica. O significado do diminutivo é duplo: por um lado, exprime-se, desta maneira, o carinho com que o tratou o seu criador; por outro, dada a sua consentida subalternidade, o quase nulo papel a que se conformou como agente de uma História que sempre lhe escapou, este Zé não poderia reivindicar o entono solene de Povo ou, ainda menos, o aumentativo de “Povão”. É um Povinho que ali está, rafado no corpo e comido na alma pela rapacidade dos políticos tarimbeiros e dos argentários ladinos.

O destino do Zé Povinho foi adivinhado por Bordalo Pinheiro desde o primeiro desenho em que o esboçou. Numas festas de Santo António, patrono de Lisboa, ante um presépio popular no qual um outro António (Maria de Fontes Pereira de Melo), então chefe de governo, dava colo ao rei D. Luís, no lugar de um Menino Jesus ausente, era visível o ministro da Fazenda da altura, vestido como o rapazio dos bairros lisboetas, pedindo ao sacrificado Zé umas moedas “para a cera” do santinho. O Zé, de sapatos cambados e calças rotas, abria a boca, em pasmo paspalhão, coçava a cabeça, puxando para trás o chapéu braguês da sua popular condição … e dava! Voltará a dar sempre, coagido ou manipulado. Dará para as prebendas dos ministros, para as dissipações dos monarcas, para as festas oficiais – cujo significado não entende –, para as negociatas de potentados como Burnay ou como o Marquês da Foz, para as luminárias dos aniversários régios, para os vestidos parisienses e para as cartolas lustrosas da aristocracia, para o equipamento de forças policiais que o espancam, para a modernização de cidades onde raramente se desloca, para os vencimentos de parlamentares que o desprezam e de uma Administração que o maltrata. E, como Rafael Bordalo Pinheiro bem adverte, enquanto o mundo se transforma em mil novas mutações, o Zé, bem povinho e ignaro, “fica sempre na mesma”. Ficará sempre à porta de todos as cenografias por onde se dispersam os ócios burgueses: o Zé não vai aos toiros, não entra na festa do burguês nobilitado, não frequenta a ópera do S. Carlos e nem sequer a “geral” do Teatro da Rua dos Condes, não leva os filhos ao circo do Prince, não tem lugar em quermesses de caridade (onde é o hipotético e mirífico “beneficiado” !!), não espairece no Passeio Público, não namora “de gargarejo”, não usa bengala ou lorgnon, não lê jornais por ser analfabeto. Mas paga, paga incessantemente, paga num jeito de fatalidade interiorizada, paga tudo.

O Zé é manso como um boi ou como um jumento subjugado. Por isso, o seu adereço mais familiar é uma albarda, ou umas dúzias de albardas sobrepostas. Para lhe sublinhar esta psicologia de submissão pacóvia, Rafael Bordalo Pinheiro começou por lhe inventar uma companheira, de xaile e lenço triangular, atado sob o queixo. A essa mulher foi atribuído um nome esclarecedor: Maria da Paciência. Porém, o Zé Povinho não se confunde com um imbecil. Ele pressente vagamente que a grande máquina social o tem como peça propulsora e imprescindível. De tantas vezes que foi espezinhado, em vilipêndio tão ufano quão injusto, retirou ele o saber empírico do seu préstimo, da sua indesmentível utilidade, enquanto verdadeiro alicerce da Pátria. O seu riso é alvar, sem tino, quase sem intencionalidade – e, no entanto, é muitas vezes capaz de arregalar um olho de alimária à beira dum coice vingador. E, sobretudo na cerâmica de Bordalo, o famoso “manguito” dar-se-á como sinónimo de uma clarividência sem teoria, sim, mas apesar de tudo sábia, no desvendamento, mais intuído do que demonstrado, de cumplicidades pulhas, de poderes apodrecidos e de bastidores corruptos.

Rafael Bordalo Pinheiro desesperou-se frequentemente com a sua criatura. E outras tantas vezes desvaneceu-se com ela, reprimindo uma furtiva, uma romântica lágrima mais rebelde. Chamou-lhe bronco, palerma, “pateta das luminárias”, animal de carga. Interpelou-o como se fora o pai preocupado de um filho meio inimputável. Como se alimentasse a esperança, sempre renascida, de ver o seu Zé Povinho promovido, finalmente, à dignidade de Povo. De Povo Português, esse filho que o seu republicano coração estremecia.

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