XLVI João Franco, O Nefasto

Amadeu Carvalho Homem

joao_franco_nefasto_xlvi.jpg

João Franco

Não foi por acaso que certa opinião pública adversa brindou João Ferreira Franco Pinto Castelo-Branco com um depreciativo epíteto: o Isca Ardente ou Isca a arder. De face miúda, com tendência para revelar um ligeiro prognatismo, a regularidade das suas feições, sublinhadas por um bigode petulante, consentia o vislumbre de uma interioridade psicológica à tona da qual flutuavam torvelinhos de vaidade. Contavam-se episódios pouco abonatórios do seu tempo de estudante de Coimbra. Perseguia e matava gatos à cacetada; e sempre que organizava, à sombra da praxe académica, expedições de punição contra estudantes caloiros, os seus colegas ouviam-no declarar, como um duque renascentista ofendido: “Vamo-nos a uma noite de despotismo!”.
Como ministro da Fazenda do gabinete regenerador de Serpa Pimentel, organizado no primeiro turbilhão do Ultimato, aprendeu com Lopo Vaz, seu colega na pasta do Reino, os processos mais eficazes para cercear as garantias e os direitos constitucionais dos cidadãos e sobretudo para quebrar o protesto das oposições. Iniciou também aí o tirocínio da manobra política e da conspiração surda. João Franco irá aliar-se a Hintze Ribeiro, um outro ambicioso político regenerador, para minar e enfraquecer a chefia de Pimentel e para preparar a sua próxima queda e a sua definitiva desqualificação. Em consequência destes jogos florentinos, que tiveram a cumplicidade ou pelo menos a simpatia do rei D. Carlos, quando a próxima situação regeneradora se constituiu, ela já não teve a égide do defraudado Serpa Pimentel, mas orquestrou-se sob a batuta de Hintze Ribeiro, numa nunciatura premonitória de potencial Papa novo… João Franco recebeu das mãos de Hintze, no gabinete de 1893-1897, a mesma pasta do Reino que dera origem à “lenda negra” de Lopo Vaz; e, tal como ele, viria a desempenhá-la com o mesmíssimo desprezo pela dignidade cívica dos seus concidadãos. Os actos eleitorais passaram a ser sistematicamente adiados e as regras do sufrágio foram revistas de modo a convertê-lo num embuste grosseiro. Realizadas as eleições já sob a nova e crapulosa disciplina, em Novembro de 1895, as oposições recusaram-se a colaborar nessa farsa e constituiu-se, com uma chusma de “Conselheiros Acácios regeneradores”, o famigerado e mais do que ridículo Solar dos Barrigas. Bastou também que em Lisboa um pobre demente, internado em Rilhafoles, tivesse apedrejado a carruagem real e que uma bomba tivesse explodido, sem consequências físicas, num vão de escada de Lisboa, para que o governo aprovasse, em Fevereiro de 1896, uma “lei anti-anarquista” , logo baptizada pelos círculos republicanos como a “lei celerada”. A corporação policial foi reformada e singularmente reforçada nos seus poderes; os agentes passaram a gozar de tamanhas impunidades que bem se poderia declarar que eles eram completamente irresponsáveis e intangíveis no exercício das suas funções repressivas. Atacou-se também a liberdade de imprensa e foi-se ao ponto de censurar a própria Sociedade de Geografia, determinando-se que esta não poderia exprimir quaisquer opiniões sobre as políticas colonialistas do governo. Tal como em todos os regimes de força, exigiu-se também aos professores de estabelecimentos superiores de ensino que jurassem fidelidade ao Trono e ao Altar, na presença de autoridades civis e eclesiásticas.
João Franco tecia a sua teia implacavelmente, com o mau génio que mostrava em todas as situações em que se visse contrariado. Essa nota da sua personalidade neurótica, essas súbitas explosões de irreprimível cólera, não lhe retiravam a capacidade de traçar no mais fundo de si os pormenorizados planos da sua futura afirmação política. Em Fevereiro de 1897, alegando discordância em relação à nomeação recente de Pares do Reino, o gabinete avançou para a demissão. Ao abandonar o seu posto ministerial, retirando-se do ministério do Reino na companhia de José de Azevedo Castelo Branco, seu amigo e admirador, João Franco dirigiu-lhe estas palavras, infelizmente proféticas: “Agora só me tornas a ver subir estas escadas como Presidente do Conselho”. Muito havia, pois, a esperar deste apóstolo da intolerância, com alma de regedor de paróquia – assim o definiu, um dia, Guerra Junqueiro. Este antigo estudante de Coimbra que movia aos gatos, junto ao Mondego, a sua guerra santa, e espancava caloiros por noites luarentas, haveria de singularizar-se proximamente como um dos mais nefastos actores do palco político português.

Unless otherwise stated, the content of this page is licensed under Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License