XXXIX O Último Combate de José Falcão

Amadeu Carvalho Homem

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imagens de José Falcão e de Augusto Fuschini

A derrota republicana de 31 de Janeiro de 1891 podia ter representado o dobre de finados das esperanças de democratização do país. Se assim não foi, se tal não ocorreu neste intervalo de abatido desalento, o mérito pertence, em larga parte, a José Falcão. O cômputo da situação portuguesa não podia ser mais inquietante: a dívida pública rondava os cento e quarenta milhões de libras, verba verdadeiramente astronómica para o nosso poder produtivo; o montante dos juros em dívida mobilizava anualmente mais de metade da receita do Estado; a balança económica revelava-se gravemente desequilibrada; estiolavam as indústrias e as transacções comerciais; a agricultura continuava a ser destinada ao consumo familiar na maior parte do que se colhia, como nos velhos tempos do Antigo Regime. José Falcão analisou com frieza os sinais do descalabro e traçou um plano audacioso: o de reformular e revigorar o Partido Republicano, fazendo-o renascer das cinzas do recente infortúnio militar. Era necessário definir uma “política de atracção” mobilizadora dos estratos sociais e profissionais até então indiferentes ou incrédulos. Urgia apresentar o republicanismo como a única doutrina capaz de reacender a crença dos elementos sociais activos, ainda que estes pudessem querer apresentar-se como economicamente conservadores. Esta estratégia teria forçosamente de cumprir-se fora da órbita da monarquia e contra ela. Porquê? Porque, desaparecidas as respeitáveis figuras monárquicas de um duque de Loulé, de um Braamcamp ou de um D. António Alves Martins, bispo de Viseu, os serventuários da monarquia forneciam ao país o deplorável espectáculo da completa abdicação de princípios. José Falcão julgava-os assim: “Os homens de hoje são de natureza diferente. Saltaram em regra dos bancos das escolas para as cadeiras do poder passando, rapidamente, pelos empregos rendosos que, pela subserviência e intriga mais do que pelo valor e trabalho, conseguiram escalar. Não trazem convicções, nem ideais, nem ciência, nem consciência. Apenas sentem ambições desmedidas, através das quais parece pequeno tudo quanto possa saciar-lhes a sede devoradora do egoísmo. Esta horda política não recuará diante dos princípios, porque os não tem; nem das convicções dos outros, porque não conhece até o sentido da palavra. Liberdades públicas, direitos individuais serão frases com o valor que lhes ditarem os próprios interesses”.
Os protestos do Ultimato haviam gerado duas agremiações, aparentemente mais honradas do que aquelas que alimentavam a guerrilha desconexa da política de então. Uma delas tinha sido a Liga Patriótica do Norte, à qual Antero de Quental oferecera o prestígio do seu nome. A outra era a Liga Liberal. Se a primeira sucumbira rapidamente, pela deserção e desinteresse dos seus associados, esta última resistia ainda. Um dos seus chefes mais representativos era Augusto Fuschini, que conseguira congregar à sua volta, sobretudo em Lisboa, um escolhido grupo de militares, que se consideravam unidos pelo cimento da crença liberal. Por isso, o plano de José Falcão iria desenvolver-se em duas frentes: por um lado, favoreceu a divulgação, em nome dos valores republicanos, de um manifesto programático que facilitasse a credibilização desse ideário junto de camadas sociais até aqui passivas; por outro, tentou abrir negociações com a Liga Liberal e conseguir uni-la ao propósito de uma próxima revolução, desta vez sem os improvisos do fracasso do Porto. A primeira parte deste plano cumpriu-se, através da publicação do manifesto republicano de 1892. Para executar a segunda parte, José Falcão abriu um longo diálogo com Augusto Fuschini, procurando trazê-lo ao redil da República. Sabe-se que ambos se encontraram no Buçaco, logo em Setembro de 1891, sendo também conhecido o considerável volume de correspondência que entre os dois se foi trocando. Persistiram, porém, notórias diferenças de opinião: para José Falcão era inconcebível que a salvação de Portugal se pudesse fazer fora ou à margem da República; mas Fuschini acreditava na capacidade de regeneração monárquica, batendo-se pelo advento de uma “monarquia nova”.
Foi este o último combate de José Falcão. A sua decrepitude física não o prostrou, não o fez esmorecer, não o condenou à abulia dos conformados. Pouco antes da sua morte ainda escreveu este emocionante depoimento: “Não tenho ambições nem desejos. Ao meu espírito inquieto verga-o a idade, pior do que a idade – a doença! Sinto que a minha vida não será longa. Mas a Pátria desfalece. Eis mais um combatente para a luta e mais um cadáver para os abutres da terra e do céu. Irei pregar a cruzada santa, como Pedro o Eremita. Sobram-me o ânimo e a fé. Levantarei as vontades, reunirei os homens sãos e patriotas antes que a Europa, com um pontapé de desprezo neste pobre leão moribundo, acabe com uma nacionalidade de sete séculos”.
Faleceu a 14 de Janeiro de 1893 e o seu corpo foi comido pelos abutres da terra. Mas o seu espírito não foi devorado pelos abutres do céu. Manteve a incorruptibilidade subtil do Eterno, reflectido no exemplo inesquecível da sua memória.

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